PESQUISA COMPLEMENTAR –
Estudo sobre o simbolismo da saudação encontrada na ritualística do Shaolin
do Norte
R.W.
Apolloni
A saudação é comum
entre personagens de filmes de Kung-Fu - o notável, no caso das academias de
Kung-Fu do Shaolin do Norte, é que ele também é dirigido ao altar central.
Trata-se, segundo os autores do livro, de uma “variação da saudação
budista utilizada no mosteiro em que o estilo se desenvolveu”. Eles
explicam que a saudação está relacionada ao Taoísmo, e que, enquanto a mão
fechada “significa a força física, o princípio ativo da energia –
‘yang’, o caráter animal (tigre)”, a mão espalmada representa
“o domínio das faculdades internas, o princípio passivo da energia,
‘yin’, o caráter ‘espiritual’ (dragão) do ser humano”.[1]
Outra explicação da saudação pode ser encontrada em um site de seguidores de
um mestre de Kung-Fu Shaolin chamado Chang Dsu Yao. Eles politizam seu
significado:
“primeiro,
o [punho] esquerdo fechado denota empenho, liberdade, enquanto a mão direita
aberta significa paz e respeito pela liberdade. (…) Mais tarde esta saudação
passou a representar Ming (...) Ming era, também, o nome de uma dinastia
chinesa em nome da qual praticantes de Shaolin lutaram por muito tempo contra a
Dinastia Manchu Ch’ing. Então, a saudação também representava a
marca de identificação entre patriotas chineses que eram particantes de
Kung-Fu.”[2]
Vale observar, no texto, a
referência à “forma” das mãos, que é invertida – no caso brasileiro, a
mão fechada é a direita, e a aberta, a esquerda. Em princípio verifica-se, aí,
apenas uma mudança de perspectiva em relação ao observador, que não seria o
indivíduo que saúda, mas sim o que é saudado - “A” cumprimenta “B”:
para este, o punho fechado daquele estará no lado esquerdo do campo de visão
(fig. 31 da dissertação).
Os autores ainda apresentam
o cumprimento budista de que teria derivado a saudação - nele, o braço
esquerdo é colocado de forma a que a mão fique posicionada verticalmente na
altura do coração, com a palma voltada para a direita; o braço direito é
colocado horizontalmente, na altura do umbigo, e a mão (a palma voltada para
cima) apontada para a esquerda, quase tocando o antebraço à meia altura. Eles
também se referem a uma forma “fraterna”, na qual a mão esquerda envolve a
direita.
Essa saudação é de uso
comum pelos praticantes de Shaolin do Norte do Brasil e de outros países. Uma
imagem das mãos unidas também compõe o brasão da Confederação Brasileira
de Kung-Fu e de várias federações, como a paulista e a paranaense.[3]
Uma pesquisa junto a fontes acadêmicas não permitiu identificar a origem ou o
significado dessa saudação.
Nossa primeira suspeita, de
que seria uma forma de identificação entre integrantes do movimento sectário
chinês, não se confirmou. Barent Ter Haar[4]
aponta formas de três dedos (polegar, indicador e médio) como sinais básicos
de reconhecimento nas tríades. Eles seriam feitos através da apresentação
dos dedos esticados ou, então, pela a apreensão de objetos como copos,
cachimbos etc. Segundo o autor, as tríades desenvolveram códigos que incluíam
cortes de cabelo, roupas, modos de alimentação e recitações. Dian Murray[5]
também se refere a sinais de reconhecimento nas tríades: modos de vestir,
maneiras de iniciar a queima de fumo e ópio em cachimbos e a colocação de
objetos em locais específicos de salões. Não há, nessa obra, referências a
sinais com as mãos.
A pesquisa sobre a origem
religiosa da saudação também foi infrutífera. Em uma consulta à obra de
Ingrid Ramm-Bonwitt,[6]
não encontramos gesto semelhante nos rituais ou na iconografia religiosa
budista ou hinduísta. Por fim consultamos o estudo de Mu & Li,[7]
que relaciona formas chinesas tradicionais e modernas de comunicação não-verbal,
entre elas saudações. Não há referências ao objeto de nossa pesquisa.
O esgotamento das fontes de informação a respeito do sinal religioso/simbólico e institucional do cumprimento em si, porém, não cobre o assunto com um insondável manto de mistério. Por incrível que possa parecer, talvez o significado da saudação seja o mais prosaico: apenas uma saudação! Ainda que não tenhamos esse dado no estudo de Mu & Li, acreditamos, com base na observação de filmes chineses – em que o cumprimento aparece em um número não desprezível de situações, praticado por personagens dotados de habilidades marciais ou não – que se trate de uma saudação tradicional comum, de mesmo significado do cumprimento tradicional do Ocidente,[8] mas esvaziada de força semântica junto à atual sociedade chinesa.
[1]
Ibid., p. 43 e 44.
[2]
<http://www.geocities.com/Tokyo/1321/salute.html> (c. 31.01.2004).
Trad. livre do inglês.
[3]
Na capa de HUNG & KLINGBORG, "Northern Shaolin..." há uma
foto do mestre fazendo a mesma saudação.
[4] HAAR, em "Ritual & Mithology of…”, p. 440
[5] MURRAY, em "The Origins...", p. 94.
[6]
RAMM-BONWITT, I., "Mudrás - As Mãos como Símbolo do Cosmos", 1ª
ed., São Paulo: Editora Pensamento, 1995, 273 p.
[7]
MU, Z. & LI, G., "Chinese Emotion and Gesture", publ. pela
School of Commercial and Economic Laws (Gotenburgo), in <http://www.ling.gu.se/~biljana/gestures2.html>
(c. 05.02.2004).
[8]
Em que dois indivíduos estendem e apertam as mãos direitas.